INSPIRAÇÃO

LÚDICO:LIBERTADOR DE LABIRINTOS

Monica Toutin

  

Há no mundo um incrível movimento de redescoberta da simbologia do Labirinto em países que possuem, em sua história, este traço cultural. Não só antigos labirintos tem sido alvo de pesquisas, mas também novos labirintos estão sendo construídos em hospitais, casas de repouso, spas, parques públicos, jardins privados, retiros, hotéis, centro de conferências, escolas, universidades, catedrais, shopping centers, etc. Os labirintos são considerados fonte de paz, tranqüilidade, introspecção, caminho de reflexão e símbolo da trajetória individual.

Os benefícios do contato individual com os labirintos têm sido registrados como altamente benéficos. Educadores têm usado o labirinto como recurso pedagógico e tema transversal a ser trabalhado em diferentes disciplinas: Arte, Linguagem, Bem Estar e Movimento, Matemática, Geometria, História, Mitologia, Estudos Sociais. Sobretudo tem-se observado o beneficio que a criança obtém no campo afetivo ao conhecer este percurso. Neste sentido, o labirinto tem sido usado como instrumento de resolução de problemas e conflitos, na medida em que fornece uma percepção de que a vida é uma trajetória, a qual todos percorremos.

O Curso de Educação Lúdica do Instituto de Educação Vera Cruz (http://veracruz.edu.br/?frame=paginas.php&unidade=4) , coordenado pelos professores Adriana Friedmann e José Ricardo Grillo foi, na nossa experiência, uma oportunidade de reencontro com a própria essência, através de conteúdos vivenciais.É neste contexto que se inseriu o desenvolvimento da monografia “Lúdico: Libertador de Labirintos”. Para uma melhor compreensão deste trabalho alguns esclarecimentos se fazem necessário.

O QUE É LABIRINTO?

 “In the labyrinth, one does not lose oneself

In a labyrinth, one finds oneself

In a labyrinth, one does not encounter the Minotaur

In a labyrinth, one encounters oneself”.

(do livro Through the Labyrinth de Hermann Kern)

 “No labirinto, ninguem se perde, se encontra. No labirinto não se encontra o Minotauro, encontra-se a si mesmo” (Tradução livre).

 Etimologicamente a palavra labirinto permanece inexplicada. O que se diz mais freqüentemente é que labyrinthos significa “casa do machado de duas cabeças” e que a palavra está associada à “pedra”.

O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa traz as seguintes definições para a palavra Labirinto:

1. “Vasta construção onde uma rede de salas e galerias, subterrâneas ou à superfície, se entrecruzam de tal maneira que se torna difícil encontrar a saída”.

2. “Estrutura, conjunto que forma uma complicada rede de elementos (aléias de jardins, traçado de ruas, caminhos, corredores, etc) em meio aos quais é possível perder-se; Dédalo.

3. “Coisa muito enredada; complicação inextricável; emaranhado, imbróglio, Dédalo.

Contudo, há outro sentido para a palavra, anterior a esta origem literária de “confusão”.

Hermann Kern (1941 – 1985), estudioso alemão, é considerado autor do livro mais completo sobre Labirintos, Throuh the Labyrinths, traduzido para o Inglês em 2000. Segundo o autor, o labirinto seria uma ferramenta para transformação espiritual, psicológica e pessoal. O autor afirma ainda, que labirintos têm sido usados no mundo todo como um meio de aquietar a mente, encontrar o equilíbrio, estimular a meditação, a inspiração e as celebrações. Trata-se de um símbolo antigo que representa totalidade. O labirinto combina a imagem do círculo e a espiral num caminho de movimento sinuoso, mas significativo que vai da periferia ao centro e volta para fora. O labirinto tem apenas um caminho. O caminho para dentro é o caminho para fora. Em sua concepção mais básica, refere-se a uma metáfora para a jornada ao centro do eu mais profundo e de volta ao mundo com uma compreensão expandida de quem somos.

Jeff Saward, estudioso inglês, também considerado uma autoridade no tema dos labirintos, acredita ocorrer atualmente um renascimento do labirinto como ferramenta espiritual, de recreação e recurso anti-stress.

 O minucioso estudo de Kern revela que o labirinto tem sido um símbolo da civilização com mais de 4.500 anos de história. Contudo, ele não se constitui apenas de um símbolo do passado, mas um símbolo que continua tendo significado nos dias atuais e está presente na mitologia, na história, na literatura, no cinema, na música, nas artes plásticas, na arquitetura, nas brincadeiras infantis, jogos, etc.

O conceito de labirinto segundo Kern manifesta-se de três formas:

  1. 1.       Como um padrão de movimento (dança)
  2. 2.       Como uma figura gráfica (desenho)
  3. 3.       Como tema literário (maze)

            Acredita-se que a manifestação original do labirinto tenha sido a dança, sendo o movimento corporal a forma de expressão mais direta e primária, o que se comprova pela Antropologia, pela Etnologia e pela simples observação de nossas crianças. A partir desta manifestação teriam surgido, então, as expressões gráfica e literária.

            Desenhos de labirintos foram encontrados em moedas, rochas, tecidos, cerâmicas, cestos, gravados em cavernas, potes; impresso em manuscritos.

Os componentes básicos para a construção de um labirinto são:

–  uma cruz central

– quatro pontos alinhados de forma quadricular

– quatro ângulos retos

            Sua forma de construção nos faz concluir que um quadrado é claramente transformado em círculo. O quadrado e o círculo representam duas visões de mundo básicos, o que indica que o labirinto é uma figura orientacional, quintessencial. Baseado na interpretação do círculo como símbolo dos céus (e do caminho do sol) e o quadrado como símbolo da terra, conclui-se que a quadratura do círculo ou a abóboda sobre o quadrado,

LABIRINTOS E DÉDALOS

            Kern verificou que Labirintos e dédalos são normalmente confundidos, apesar de serem bem diferentes. Um Dédalo é como um quebra-cabeça que requer solução. Este possui voltas, mudanças bruscas e becos sem saída. Trata-se de uma tarefa de desafio, ligada ao lado esquerdo do cérebro, que envolve lógica e análise para encontrar a passagem correta para entrar e para sair. Um dédalo requer mais escolhas e um cérebro mais ativo.

            Por outro lado, o labirinto está ligado ao lado direito do cérebro. Requer uma mente mais passiva e receptiva. Envolve criatividade, imaginação e intuição. A única escolha que requer é entrar ou não no labirinto e trilhar uma jornada.

            Através deste estudo podemos observar que o termo dédalo (maze) tem sido comumente usado como uma metáfora, referindo-se a uma situação confusa, difícil e obscura. Este sentido figurativo da palavra apareceu no século III. Naquela época surgiram muitos escritos cujo tema literário baseava-se nesta noção particular de labirinto. Mas, o que era uma mera construção literária acabou ofuscando o termo em seu sentido mais verdadeiro e simples. De fato, estas duas noções distintas se misturaram resultando numa confusão terminológica.

            A característica mais importante do labirinto não são as linhas que formam as paredes, mas o espaço negativo do caminho formado pelas linhas que determinarão o padrão do movimento:

  1. 1.       O caminho não é interceptado (não há escolhas)
  2. 2.       O caminho de ida é o mesmo caminho de volta, mudando de direção continuamente.
  3. 3.       O caminho preenche todo o espaço interior em forma de circuito.
  4. 4.       O caminho leva o visitante a passar pelo centro repetidamente.
  5. 5.       O caminho termina inevitavelmente no centro.
  6. 6.       É o único caminho de volta para a entrada.

 

Por que caminhar?

“Não há caminhos para a paz, a paz é o caminho”       Ghandi
“O real não está na saída, nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”         Guimarães Rosa

             Helen Raphael Sands, professora e poeta, trabalha hoeje em dia na Inglaterra como professora de pessoas com necessidades especiais. Em seu livro: Labirinto – Caminho para Meditação e Cura, relata os benefícios de se caminhar pelo labirinto:

 “O labirinto é como um grande amplificador que atua sobre setores de nossas vidas que costumam estar inconscientes, fazendo-os vir à tona; assim, caminhar por um labirinto pode trazer revelações únicas, de grande intensidade e valor. Caminhar por um labirinto equivale a olhar para dentro de si”.

         Os labirintos foram feitos para caminhar por muitas razões, podendo ajudar o indivíduo a olhar profundamente em si mesmo e perceber-se, ampliando a consciência de si. É um lugar para celebrar a vida, instrumento para trazer um momento de paz ou um ritual de saudações. A caminhada do labirinto pode se tornar um mestre da vida ou uma visão de onde cada um se encontra naquele processo. É também instrumento de oração. É um ato que demanda ação, que acalma e suaviza momentos de crises e transições. Caminhar pelo labirinto ajuda a perceber a vida num contexto de caminho, uma peregrinação. Esclarece que não somos seres humanos num caminho espiritual, mas seres espirituais num caminho humano. A caminhada pode consolar àqueles que passam por grandes sofrimentos, aliviando o coração dolorido e a exaustão da alma. A caminhada pelo labirinto nos ajuda a estar atentos, a escutar o coração e aprender a estar presente no momento; aquietar o murmúrio da mente, o tempo suficiente para perceber o que a nossa essência tenta nos dizer. Enfim, caminhar pelo labirinto, é caminhar ao encontro da própria essência.

Mônica Toutin

Uma resposta para INSPIRAÇÃO

  1. rita baratieri disse:

    MARAVILHOSO!

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